5  Mamíferos e aves


Arlindo Gomes Filho1, Elildo Alves Ribeiro de Carvalho Junior2, Gerson Buss3, Marcelo Lima Reis4, Marcos de Sousa Fialho1, Rafael Suertegaray Rossato3, Ricardo Sampaio3, Richard Hatakeyama5, Thiago Orsi Laranjeiras6

  1. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres – CEMAVE
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    BR-230 Km 10
    Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo
    58108-012 Cabedelo, PB

  2. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros – CENAP
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Estrada Municipal Hisaichi Takebayashi, 8600 - Bairro da Usina
    12952-011 Atibaia, SP

  3. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros – CPB
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    BR-230 Km 10
    Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo
    58108-012 Cabedelo, PB

  4. Coordenação de Monitoramento da Biodiversidade - COMOB
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Complexo Administrativo EQSW 103/104 s/n
    70670-350 Brasília, DF

  5. Núcleo de Gestão Integrada - NGI ICMBio Tefé
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Estr. do Aeroporto, 725 - Centro
    69550-101 Tefé, AM

  6. Parque Nacional do Viruá
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    69360-000 Caracaraí, RR


Mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas são animais que sofrem muita pressão com a caça, redução e fragmentação de habitat, sendo considerados bons indicadores de impactos de origem antrópica. A defaunação das florestas acarreta a chamada “síndrome da floresta vazia”, a ausência de muitas espécies de animais causada pela forte pressão antrópica e seus efeitos ([1]). A redução das populações animais afeta diretamente a biodiversidade e impacta negativamente a própria estrutura e sobrevivência das florestas em razão da perda de polinizadores, dispersores de sementes e outros processos ecológicos essenciais, tornando importante o monitoramento desses dois grupos de animais em programas como o Monitora.

Nesse capítulo apresentamos alguns resultados gerais do monitoramento de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas, sistematizados até o momento pelo Programa.

A taxonomia utilizada foi a mesma adotada no processo de avaliação do estado de conservação das espécies da fauna brasileira ([2]).


5.1 Estado da implementação


De 2014 a 2022 o protocolo básico de amostragem de mamíferos e aves (censo diurno em transecção linear) foi aplicado de forma integral ou parcial em 52 UCs federais, totalizando 138 UAs (transecções lineares) em operação, distribuídas nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.

O esforço de amostragem nos nove anos considerados neste relatório correspondeu a 5.356 dias de campo (transecção/dia) e 25.602,55 km percorridos (Figura 5.1), resultando em 22.985 registros de mamíferos de médio e grande porte e em 12.995 de aves terrestres cinegéticas. No total, foram identificados 155 táxons de Mamíferos e 37 de Aves, considerando gêneros e espécies ((Figura 5.2); Apêndice C), com ?? e 6 táxons de mamíferos e aves ameaçados de extinção, respectivamente.

Das UCs amostradas, 34 (67%) já estão consolidadas, com pelo menos três unidades amostrais (transecções lineares) em operação. Seis UCs (12%) retomaram as amostragens em 2022, sete UCs (13%) estão inativas (há mais de dois anos consecutivos sem amostragem) e duas UCs (4%) não coletaram dados em 2022. O esforço por UC e por bioma (Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia) é apresentado na (Figura 5.3).

Figura 5.1: Esforço por ano (linha marrom) e acumulado (linha verde) em quilômetros percorridos nas unidades de conservação integrantes do Programa Monitora de 2014 a 2022.


Figura 5.2: Táxons registrados acumulados (linha) e número de unidades de conservação (barras verticais) com protocolo básico de mamíferos e aves executado por ano, de 2014 a 2022.


Mais de 95% do esforço de amostragem ocorreu no bioma Amazônico. Isso se deve tanto ao maior número de unidades de conservação integrando o Programa Monitora nesse bioma, quanto ao esforço médio empregado por cada unidade de conservação (Figura 5.3). As unidades no Cerrado e na Mata Atlântica são menores e nem sempre comportam a rede recomendada de transecções: três estações amostrais de cinco quilômetros cada. Ademais, geralmente custear as atividades de campo nesses biomas é mais difícil, dada a maior disponibilidade de financiamento internacional para programas de monitoramento na Amazônia.

Figura 5.3: Esforço em quilômetros percorridos por unidade de conservação por bioma por ano, de 2014 a 2022.


5.2 Resultados


5.2.1 Visão geral


A maioria dos registros (56%) do protocolo básico de monitoramento de mamíferos e aves correspondeu a primatas e roedores (Figura 5.4). Esse resultado se deve, em parte, ao fato de o método ser mais eficiente na detecção desses grupos. Espécies noturnas e esquivas, como a maior parte dos carnívoros, são pouco registradas.

Figura 5.4: Representatividade das principais ordens de mamíferos amostradas no Programa Monitora, durante o período de 2014 a 2022. As barras em verde escuro representam o número de espécies registradas na ordem e as barras em verde claro o número de registros.


Dentre os mamíferos, os primatas destacaram-se como o grupo preponderante em número de registros e, exceto para o gênero Callibella, todos os demais gêneros de primatas com ocorrência no Brasil foram registrados. Setenta espécies foram detectadas, o que corresponde a 84,7% dos primatas brasileiros. Dessas, 18 espécies são consideradas ameaçadas de extinção e duas apresentam deficiência de dados (DD) para avaliação.

Com relação às aves, 37 táxons (gêneros e espécies) foram registrados (Apêndice D). Durante as amostragens busca-se a identificação dos indivíduos observados no nível específico. Contudo, em algumas unidades de conservação duas, três ou mais espécies muito semelhantes, de um mesmo gênero, ocorrem em simpatria. Nessas situações, por segurança, esses registros são validados taxonomicamente em nível de gênero. Como exemplos podemos citar Nothura (codornas), Penelope (jacus), Tinamus (macucos) e Crypturellus (inhambus), todos gêneros com um ou mais táxons ameaçados de extinção (Apêndice D), conforme a Portaria MMA nº 148/22.

A maioria dos registros de aves distribui-se quase que igualmente entre Galliformes e Tinamídeos. Esse resultado se deve ao fato de o método ser eficiente na detecção desses grupos e em razão dos Gruiformes (jacamins) ocorrerem apenas no bioma Amazônico, nunca com mais de uma espécie por localidade, enquanto os Cariamiformes, com uma única espécie (seriema – Cariama cristata), são típicos de ambientes abertos e praticamente não foram avistados (Figura 5.4).

A variação nas proporções de registros no Cerrado e na Mata Atlântica ao longo dos nove anos de amostragem deve-se ao ainda pequeno número de unidades de conservação desses biomas integrando o Programa Monitora, à inconstância nas amostragens e ao pequeno esforço amostral, seja por unidade de conservação, seja por bioma (Figura 5.4).


5.2.2 Abundância relativa de mamíferos e aves por biomas


Em termos de abundância total de mamíferos e aves, o bioma Amazônico se destaca por apresentar taxas de avistamento mais altas (9,33 e 5,27 avistamentos/10 km, respectivamente). Os biomas Cerrado e Mata Atlântica apresentaram taxas médias de avistamento inferiores e mais próximas (4,07 e 3,26 no Cerrado e 3,17 e 1,26 na Mata Atlântica) (Figura 5.5). Observamos que não foram aplicados testes formais para avaliar a existência de diferenças estatisticamente significativas nas comparações realizadas, sendo apresentada aqui apenas uma análise exploratória e descritiva, com uma interpretação baseada nos valores médios e na inspeção visual dos resultados gerados.

Figura 5.5: Taxa de avistamento média de aves e mamíferos por bioma para o período de 2014 a 2022.


5.2.3 Taxa de encontro de mamíferos e aves ao longo do tempo - geral e por bioma - 2014 a 2022


A abundância relativa geral média para mamíferos e aves, considerando todas as unidades de conservação amostradas de 2014 a 2022, foi de 8,27 e 4,87 avistamentos/10 km, respectivamente. O bioma Amazônia apresentou as maiores taxas médias (9,34 e 5,27), seguido pelo Cerrado (4,07 e 3,26) e pela Mata Atlântica (3,26 e 1,24) (Figura 5.6). Considerando a variação da abundância relativa ao longo do tempo, na Amazônia os primeiros anos apresentam uma maior dispersão dos resultados, explicada pelo número proporcionalmente reduzido de UCs participantes e consequente menor esforço amostral na fase inicial do Programa, além de um leve decréscimo nas abundâncias em 2021 e 2022. Para a Mata Atlântica os resultados são irregulares devido à descontinuidade de amostragem e à grande variação no esforço entre os anos. Já para o Cerrado, o padrão observado se justifica pelo fato das duas UCs com dados coletados em 2022, o PARNA da Serra da Bodoquena e a ESEC de Pirapitinga, serem distintas das demais, com matriz florestal e, consequentemente, com maior taxa de avistamento.

Figura 5.6: Variação anual na taxa de avistamento média de mamíferos e aves de 2014 a 2022 (geral e por bioma). As linhas horizontais representam a taxa de avistamento média para cada grupo considerando todo o período amostral.


5.2.4 Abundância de mamíferos e aves nas unidades de conservação


Dentre as UCs com maiores taxas de avistamento totais para mamíferos destacam-se a REBIO do Uatumã, a RESEX Verde para Sempre e a ESEC da Terra do Meio (Figura 5.7). Essas três UCs também estão entre as quatro UCs com maiores taxas totais de avistamento de aves (Figura 5.8). Contudo, a posição da RESEX Verde para Sempre deve ser considerada com cautela, visto que representa um único ano de amostragem (2022).

Figura 5.7: Taxa média de avistamento de mamíferos por unidade de conservação de 2014 a 2022.
Figura 5.8: Taxa média de avistamento de aves por unidade de conservação de 2014 a 2022.


5.2.4.0.0.1 Variação espacial na taxa de encontro média - mamíferos e aves conjuntamente


O tamanho das unidades de conservação do Programa Monitora varia muito entre biomas. No Cerrado e na Mata Atlântica as unidades de conservação são relativamente pequenas, com algumas dezenas de milhares de hectares, enquanto na Amazônia podem ultrapassar um milhão de hectares. Considerando que nas unidades do Cerrado e Mata Atlântica a abundância de mamíferos e de aves, expressas pelas taxas de avistamento médias, são inferiores (Figura 5.7 e Figura 5.8), é natural considerar que estas populações apresentem, em geral, uma maior vulnerabilidade demográfica comparada àquela das populações amazônicas. A distribuição espacial da taxa de avistamento média geral (considerando conjuntamente mamíferos e aves) é apresentada na Figura 5.9. Dentre as unidades de conservação da Amazônia aquelas localizadas entre os rios Tapajós e Xingu apresentam as maiores abundâncias, à exceção da REBIO do Uatumã, localizada ao norte do Rio Amazonas e que também apresenta uma alta taxa média geral de avistamento (Figura 5.9).


Figura 5.9: Distribuição espacial das taxas médias de avistamento de mamíferos e aves (taxa geral, considerando conjuntamente os dois grupos) registradas nas unidades de conservação do Programa Monitora de 2014 a 2022.


5.2.5 Considerações sobre algumas espécie ameaçadas


Do conjunto de táxons da ordem Carnivora deste protocolo, 12 espécies ameaçadas já foram registradas ou têm sua ocorrência esperada nas 52 unidades de conservação analisadas: Atelocynus microtis, Chrysocyon brachyurus, Lycalopex vetulus, Speothos venaticus, Herpailurus yagouaroundi, Leopardus colocolo (L. braccatus), L. guttulus, Leopardus tigrinus (e L. guttulus), L. wiedii, Panthera onca e Pteronura brasiliensis. Apenas uma espécie de mamífero carnívoro ameaçada, Leopardus geoffroyi (L. munoai), não tem ocorrência esperada nas unidades amostradas. Desses táxons elencados, apenas Lycalopex vetulus e Leopardus colocolo não foram registrados no Programa Monitora.

Dos táxons da ordem Cetartiodactyla, Perissodactyla, Cingulata e Pilosa, nove espécies ameaçadas já foram registradas ou têm sua ocorrência esperada nas 52 unidades de conservação analisadas: Blastocerus dichotomus, Mazama nana, Ozotocerus bezoarticus, Tayassu pecari, Priodontes maximus, Tolypeutes tricinctus, Tapirus terrestris, Bradypus torquatus e Myrmecophaga tridactyla. Desses taxa elencados, Blastocerus dichotomus, Mazama nana, Priodontes maximus, Tolypeutes tricinctus, Bradipus torquatus e Myrmecophaga tridactyla não foram registradas no Programa Monitora.

(faltam primatas e roedores!)

Do conjunto de aves alvo deste protocolo, 14 espécies ameaçadas já foram registradas ou têm sua ocorrência esperada nas 52 unidades de conservação analisadas: Nothura minor, Taoniscus nanus, Crypturellus zabele, Tinamus tao, Aburria jacutinga e A. cujubi, Penelope jacucaca e P. pileata, Crax blumenbachii e C. globulosa, Psophia obscura, P. interjecta, P. viridis e P. dextralis, mais duas subespécies, no caso Penelope s. alagoensis e Crax f. pinima.

Desses táxons elencados já foram registrados pelo Programa Monitora Aburria cujubi, Crax globulosa e as quatro espécies ameaçadas de Psophia, além da subespécie ameaçada de Penelope. Ressaltamos que Tinamus tao, Penelope pileata, P. jacucaca e Nothura minor foram ou poderiam ter sido registradas em campo. Porém, como ocorrem em simpatria com espécies semelhantes, os registros para esses grupos foram validados em nível de gênero.

Importante destacar a ausência de registros de A. jacutinga, que seria esperada para quatro UCs na Mata Atlântica, na região Sul e Sudeste, dada sua distribuição geográfica original.


5.2.5.1 Abundância para algumas espécies ameaçadas de mamíferos e aves


Figura 5.10: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para duas espécies de primatas atelídeos ameaçados. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.
Figura 5.11: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para cinco espécies de primatas ameaçados. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.
Figura 5.12: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para a espécie ameaçada tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.

No Cerrado eventuais avistamentos de espécies de aves ameaçadas foram, via de regra, agrupados em nível de gênero, dada a existência de espécies congêneres semelhantes. Taoniscus nanus (EN), conhecida por codorna-carapé, uma espécie monotípica e exclusiva deste bioma, não foi registrada.

No extremo norte da Mata Atlântica, na REBIO Guaribas, foram obtidos registros para Penelope s. alagoensis (CR), uma subespécie de jacupemba, mas, infelizmente, esta UC interrompeu as amostragens. Ainda neste bioma, eventuais registros de Crypturellus zabele (VU), zabelê, podem ter sido atribuídos a Crypturellus spp., sendo preocupante que nenhum registro de Aburria jacutinga (EN), a jacutinga, tenha sido obtido, a despeito do esforço amostral realizado em ao menos cinco UCs localizadas em sua área de distribuição.

Na Amazônia, avistamentos de Tinamus tao (VU), azulona, foram reportados para praticamente todas as UCs para as quais a espécie era esperada, mas por estas áreas normalmente apresentarem outras espécies de Tinamus, seus registros foram agrupados para o gênero.

Na Figura 5.13 podemos visualizar os valores e suas flutuações para a abundância relativa de cinco espécies de aves amazônicas ameaçadas, um cujubim (Aburria cujubi) e quatro jacamins (Psophia sp.) para o conjunto de UCs do Programa Monitora. A despeito de se observar uma variação nas abundâncias ao longo dos anos, parece haver uma tendência evidente de estabilidade demográfica das populações para o sistema de 21 unidades de conservação em que essas espécies são encontradas. Dessas UCs 13 apresentam ocorrência de A. cujubi (VU), 11 de Psophia viridis (VU), oito de Psophia dextralis (VU), duas de Psophia interjecta (EN) e uma de Psophia obscura (CR).

Três unidades de conservação têm reportado observações de Crax globulosa (EN), o chamado mutum-de-fava. Mas considerando a raridade desta espécie, a falta de registros prévios próximos e o fato dos ambientes onde ocorreram as visualizações não serem aqueles considerados típicos para a espécie, que é a floresta de várzea, esses dados estão sendo considerados com cautela. Já Crax f. pinima (CR), o mutum-de-penacho, que seguramente ocorre na REBIO do Gurupi, não foi observado em qualquer momento.

Figura 5.13: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para cinco espécies de aves ameaçadas. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.


5.2.6 Média Geométrica das populações (Living Planet Index – LPI)

A média geométrica das abundâncias relativas é uma medida de escolha para monitoramento de tendências da biodiversidade em diversos programas ([3], [4]). Este índice reflete tendências na abundância e equitabilidade entre as populações, e não é afetado pelo ano base escolhido nem por variações inter-populacionais na detectabilidade, por ser baseado em tendências intra-populacionais ([5], [6]). Para o cálculo da média geométrica, utilizamos dados de 160 populações em 22 UCs. Somente foram incluídas populações com pelo menos cinco anos de monitoramento, taxa de encontro média > 0.5 encontros a cada 10 km, e com esforço amostral suficiente para atingir um coeficiente de variação da taxa de encontro ≥ 0.25. A média geométrica e seu intervalo de confiança foram estimados por bootstrap seguindo as recomendações de ([3], [5]).


Resultado da Média Geométrica

A média geométrica das abundâncias relativas das populações analisadas permaneceu estável ao longo do monitoramento, com o intervalo de 95% de credibilidade incluindo a linha de base durante todo o período (Figura 5.14). Esse resultado sugere que as UCs monitoradas têm sido efetivas para a conservação das espécies de mamíferos e aves alvos do Programa Monitora. Embora essa seja uma ótima notícia, ela deve ser interpretada em seu devido contexto, em especial considerando-se que: o protocolo foca principalmente em espécies relativamente comuns e ecologicamente flexíveis; a duração do monitoramento foi relativamente curta em relação à longevidade das espécies-alvo; e a maioria das estações amostrais foi estabelecida em áreas de referência (áreas íntegras no interior das UCs), representando cenários ideais e não necessariamente os gradientes de pressão que atuam sobre a biodiversidade na escala regional e/ou fora das UCs. Assim, a continuidade do monitoramento e o estabelecimento de estações amostrais em áreas impactadas pode elucidar melhor as tendências da biodiversidade.

Figura 5.14: Média geométrica das estimativas de abundância relativa para 160 populações monitoradas. A linha azul corresponde aos valores médios; as faixas azuladas sombreadas, ao intervalo de confiança de 90 e 95%.


5.3 Destaques


Os mutuns como indicadores


Mutuns (gêneros Crax e Pauxi) são as maiores aves florestais terrestres do bioma amazônico. Espécies de ambos os gêneros podem ser encontradas na região, muitas vezes em simpatria. Seu relativo grande tamanho e sua ampla distribuição conferem a este grupo um alto valor cinegético. Sendo assim, parece plausível supor que a frequência relativa deste grupo no total de registros de aves do Programa Monitora possa ser um indicador da intensidade de uso histórico e/ou atual da fauna nas unidades de conservação aqui tratadas.

Considerando que para a maioria das unidades de conservação amostradas o período de monitoramento ainda é pequeno, apresentamos aqui um exercício no sentido de avaliar este indicador (abundância de mutuns) apenas como descritor na dimensão “estado”, não sendo os resultados apresentados na perspectiva de “tendência” populacional.

Nas 42 unidades de conservação amazônicas participantes do Programa Monitora, a frequência relativa dos mutuns variou de 0 a 25,4% do total de registros de aves, com um valor médio de 10% (?tbl-mutuns). Duas unidades de conservação vizinhas no estado do Acre, RESEX Alto Tarauacá e Riozinho da Liberdade, não possuem registros. Em Rondônia, o PARNA de Pacaás Novos é a unidade com maior frequência relativa de mutuns (25,4%), resultante de registros de uma única espécie: Pauxi tuberosa. Curiosamente, esta unidade está inserida em um bloco florestal remanescente, composto também por outras unidades de conservação que apresentaram valores muito inferiores: RESEX Rio Ouro Preto (8,7%), RESEX do Rio Cautário e PARNA da Serra da Cutia (1,2%) e RESEX Barreiro das Antas (0,7%).


Unidade de Conservação % de Mutuns
PARNA de Pacaás Novos  25,4 
ESEC da Terra do Meio  24,7 
ESEC de Maracá  23,8 
ESEC do Rio Acre  20,5 
PARNA Serra da Mocidade  20,2 
ESEC do Jari  17,9 
REBIO do Uatumã  17,6 
PARNA dos Campos Amazônicos  17,6 
PARNA do Juruena  16,8 
PARNA Mapinguari  16,3 
PARNA do Viruá  15,9 
REBIO do Jaru  15,1 
PARNA da Serra do Pardo  15,0 
FLONA do Jamari  14,6 
REBIO do Tapirapé  13,8 
REBIO Trombetas  12,2 
ESEC de Niquiá  11,6 
RESEX Riozinho do Anfrísio  10,9 
PARNA da Amazônia  10,3 
RESEX Verde Para Sempre  9,5 
PARNA Nascentes do Lago Jari  9,1 
RESEX Rio Ouro Preto  8,7 
RESEX Renascer  7,0 
PARNA Montanhas do Tumucumaque  6,6 
PARNA do Cabo Orange  6,4 
RESEX Tapajós-Arapiuns  6,3 
RESEX Ipaú-Anilzinho  5,6 
PARNA do Monte Roraima  5,2 
RESEX do Rio Cautário  5,0 
PARNA da Serra do Divisor  4,5 
RESEX do Lago do Capanã Grande  3,7 
FLONA do Tapajós  3,2 
REBIO Gurupi  2,4 
PARNA do Jaú  2,3 
RESEX Arapixi  2,2 
PARNA da Serra da Cutia  1,2 
RESEX Chico Mendes  0,8 
RESEX Barreiro das Antas  0,7 
RESEX do Cazumbá-Iracema  0,3 
RESEX Alto Tarauacá  0,0 
RESEX Riozinho da Liberdade  0,0 

5.4 Discussão


Apesar do método de amostragem de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas (protocolo básico) ser aplicado no período diurno, todas as espécies ameaçadas e esperadas da ordem Carnivora foram registradas ao menos uma vez, num total de 114 registros. Contudo, três espécies, Atelocynus microtis, Herpailurus yagouaroundi e Speothos venaticus foram registradas menos de dez vezes, e Chrysocyon brachiurus, somente uma — aliado à atual baixa representatividade das UCs do Cerrado no Programa. Não obstante, duas espécies evidentemente diurnas e não ameaçadas, Eira barbara e Nasua nasua, conjuntamente representaram dois terços (67%) do total de registros de Carnivora. Isso demonstra a dificuldade de amostragem de espécies noturnas e raras, em grande parte superada pela implementação do protocolo avançado, que usa armadilhas fotográficas. Dessa forma, o protocolo básico fornece informações preliminares dessa ordem, que podem ser complementadas posteriormente conforme as necessidades, a capacidade e as estratégias de gestão de cada unidade de conservação. Ressalta-se que a presença de cachorros domésticos foi registrada apenas quatro vezes e não houve registro de gatos domésticos. Esse resultado pode ser apenas um reflexo da recomendação do protocolo básico de não instalação das estações amostrais em locais sob influência mais direta de atividades humanas, como nas proximidades de áreas urbanas ou núcleos populacionais.

Assim como para a ordem Carnivora, muitas espécies noturnas e abundantes de outras ordens também foram pouco registradas, especialmente para Lagomorpha (tapitis) e Cingulata (tatus), enquanto espécies da ordem Cetartiodactyla (cervos e porcos-do-mato) estiveram bem representadas.

Em relação à riqueza, alguns estudos na Amazônia também utilizaram transectos lineares para a amostragem de mamíferos alvos do componente Florestal do Programa Monitora (Calouro 1999, Pontes et al. 2010, Abreu-Júnior et al. 2017). Contudo, o protocolo utilizado pelo ICMBio apresenta algumas particularidades e comparações devem ser realizadas com cautela. De forma geral, as espécies amostradas pelo Programa Monitora foram as mesmas registradas nesses estudos, exceto por algumas ausências como Bassaricyon beddardi (Pontes et al. 2010, Melo 2012); Lycalopex vetulus na ESEC Serra Geral do Tocantins (CarmignottoI & Aires 2011), Mustela africana (Emmons & Helgen 2016: distribuição geográfica incerta na Amazônia); Galictis cuja no PARNA Serra do Cipó (Oliveira et al. 2009); Conepatus chinga no PARNA Iguaçu (Cáceres 2004); Potos flavus (Helgen et al. 2016). Já os marsupiais, ordem Didelphimorphia, por serem majoritariamente de hábitos noturnos, de pequeno porte e pouco conhecidos, foram registradas apenas algumas espécies de maior porte pertencentes ao gênero Didelphis. Essa observação anterior também se aplica aos roedores, ordem Rodentia, em que famílias inteiras com representantes muito pequenos não foram registradas, tais como Cricetidae, Dinomydae e Echimyidae, os quais exigem a captura para a sua identificação específica. Já os tatus, ordem Cingulata, não foram registrados Dasypus septemcinctus, Euphractus sexcinctus e Cabassous tatouay, os quais têm distribuição provável em várias regiões (Feijó et al. 2018; Abba et al. 2014; Rocha et al. 2022) (e talvez Dasypus beniensis?) … … … Faltam só primatas!!!

Muitas das espécies ausentes têm hábitos noturnos e apresentam baixa detectabilidade pelo método utilizado, voltado a animais diurnos. Apesar de transectos lineares noturnos poderem aumentar a detecção de espécies não diurnas, pode haver pouco benefício nessa abordagem em razão de problemas como a falta de visibilidade, dificuldade de movimentar-se em silêncio pela trilha e dificuldade de discernir auditivamente os animais em movimentação (Munari et al. 2011). Assim, o protocolo avançado com armadilhas fotográficas ainda é a melhor opção para a amostragem de algumas espécies raras e/ou de hábitos noturnos (Munari et al. 2011), mas outros métodos com enfoque em registros indiretos podem elevar consideravelmente a detecção de espécies (Sampaio et al. 2010; Ponce-Martins et al. 2022).

Taxas de avistamento

Estudos na Amazônia usando transectos lineares registraram taxas de avistamento variando de dois a 20 mamíferos/10 km: de 4,1 a 5,08 na ESEC Maracá (Pontes 1994; Mourthé 2013; Pontes 2004) e 7,62 no PARNA Viruá (Melo 2012), ambos em Roraima; 5,5 na região do rio Urucu, no Amazonas (Santos & Mendes-Oliveira 2012); 3,42 na RDS Uacari, Amazonas (Munari et al. 2011: exceto primatas); de 6,37 a 8,3 na região do baixo rio Purus (Haugaasen & Peres 2005); 6,77 na REBIO Gurupi, no Pará (Lopes & Ferrari 2000); de 7,65 a 15,82 na ESEC Terra do Meio, no Pará (apenas registros diretos: Ponce-Martins et al. 2022, Andrade et al. 2019); 120,05 na Amazônia Equatoriana (Zapata-Ríos et al. 2006); 5,92 na Amazônia Peruana (Torres-Oyarce et al. 2017). Tais valores são muito semelhantes aos encontrados nas unidades amostradas no Programa Monitora.

Em outras regiões tropicais, como por exemplo a Costa Rica, foram registradas taxas de 7 a 35 avistamentos/10 km (Carrillo et al. 2000).

Já para a Mata Atlântica, em 62 estudos realizados em diversas fitofisionomias usando transectos lineares (Souza et al. 2019) a taxa de avistamentos/10 km variou de 0,01 a 7,29, com uma mediana de 0,47 indivíduos. Esses valores são condizentes com os resultados do Programa Monitora e retratam a reduzida taxa de encontro com mamíferos, em comparação ao bioma Amazônia; 3,81 no Paraguai (Hill et al. 1997: apenas registros diretos)

DOI: https://doi.org/10.1017/S0266467400010580

(…)

Embora marcados pela ausência de registros importantes (Taoniscus nanus no Cerrado, jacutinga na Mata Atlântica e Crax f pinima na Amazônia), a despeito do esforço amostral considerável, os resultados parecem apontar para uma estabilidade demográfica no período considerado (2014-2022), inclusive para os táxons ameaçados.

Poucas iniciativas de monitoramento abrangem mais de um bioma. O Programa Monitora, em seu componente Florestal, se propôs a coletar dados no Cerrado, na Mata Atlântica e na Amazônia. Um grande desafio para as unidades de conservação e para o Programa é a continuidade na execução dos protocolos, com coletas anuais contínuas e esforço amostral estável, como recomendado, ao longo dos anos. E, embora os dados para o Cerrado e Mata Atlântica ainda sejam limitados, pelos motivos já mencionados neste relatório, para a Amazônia já é possível traçar um cenário bastante confiável sobre a presença e o estado de conservação de algumas espécies alvo deste protocolo.


5.5 Recomendações


Boas práticas para aprimorar o Programa


  • Consolidar a implantação do protocolo básico de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas naquelas unidades de conservação ainda não consolidadas, de forma que as UCs contem com pelo menos três estações amostrais implantadas e em operação;

  • Assegurar que durante as campanhas de campo as amostragens sejam realizadas de acordo com as diretrizes estabelecidas no protocolo amostral e no projeto de amostragem, em especial quanto ao respeito ao esforço amostral;

  • Assegurar que os dados coletados sejam repassados à COMOB de acordo com as orientações definidas pela Coordenação e num prazo razoável após a realização da campanha de campo;

  • Para novas unidades de conservação a participarem do Programa, promover a implementação de todas as unidades amostrais em um mesmo ano;

  • Garantir que o método seja aplicado sem erros de procedimento, como por exemplo, assegurar que apenas duas pessoas realizem a amostragem em campo, respeitando os horários estipulados para início e fim das amostragens e medindo corretamente as distâncias dos registros realizados.

Sobre a última recomendação, cabe salientar que uma análise possível e esperada para os dados obtidos pelo método empregado é a geração de quantitativos populacionais a partir da estimativa da densidade de grupos ou indivíduos. Esta estimativa seria fruto da taxa de encontro e das distâncias perpendiculares entre o grupo ou indivíduo e a transecção, mensuradas em cada avistamento. Contudo, em análises prévias não apresentadas nesse documento foram observados alguns vícios de amostragem que podem comprometer ou tornar as estimativas de densidade menos precisas. Como exemplo, na figura ????, pode-se observar o efeito spyke (número desproporcional de registros sobre a transecção) e o efeito de arredondamento das mensurações (tendência de as medidas serem atribuídas à valores arredondados como 10, 15 ou 20 m) nos dados obtidos para Psophia crepitans (jacamin-de-costas-cinzentas) na REBIO do Uatumã.

INSERIR FIGURA